terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Maria Rita

O carnaval em Recife, nós sabemos, ferve. Milhões são investidos anualmente na contratação dos artistas, na decoração, enfim, tudo que é necessário para um mega evento.

Vocês podem estar pensando que eu me jogo na festa [caminhando-e-cantando-e-seguindo-a-canção], mas não, definitivamente eu [ainda] não curto carnaval. Sim, aquelas aglomerações não me apetecem e isso significa que eu preciso de um bom-ótimo motivo pra me jogar entre o povão. Esse ano eu tive um bom-ótimo-excelente motivo pra isso. A prefeitura do Recife contratou uma das minhas divas da MPB: Maria Rita.




Eu, desde o 1º cd [Maria Rita, 2005 – o melhor], acompanho a carreira dela, que interpreta músicas [coisa que já está no sangue, diga-se] de compositores que já tem seus lugares na nossa música [Chico Buarque, Milton Nascimento, Rita Lee, Marcelo Camelo, Lenine, Gonzaguinha...]. E o show? Ah, o show... Foi muuuuuuuito bom! Ela soube pesar bem o repertório e cantou músicas de todos os álbuns, dando mais ênfase, claro, ao seu trabalho mais recente [2008]: o cd ‘Samba meu’.

Antes do show já estávamos eu e os amigos montando o repertório com aquelas músicas que se ela não cantasse ia deixar o show incompleto. Ela cantou as que nós classificamos como ‘obrigatórias’, deixando, assim, o show impecável. O público, claro, respondeu muito bem assim que, no Marco Zero, soou “meu samba vai curar teu abandono/meu samba vai te acordar do sono/meu samba não quer ver você tão triste/meu samba vai curar a dor que existe...” [Samba meu], seguida de “pode chegar que a festa vai é começar agora/e é prá chegar quem quiser/deixe a tristeza pra lá...” [O homem falou]. Depois as pérolas do 1º cd [Cara valente, A festa, Pagu, Encontros e despedidas], do 2º - Segundo - [Caminho das águas, Recado, Muito pouco, Contra outra], do [as duas do início, Num corpo só, Cria, Tá perdoado, O que é o amor, Trajetória, Maria do Socorro, Corpitcho, Casa de Noca] e um bônus: Não deixe o samba morrer.

E assim, mais de 4 da matina, acabou o show da diva. Fomos eu e as amigas para apanhar aquele velho busão, que, claro, demorou horrores. Ficamos lá apreciando o belíssimo amanhecer aqui em Recife, com as luzes das pontes ainda refletindo nas águas do rio. Aquele amanhecer é poesia pura.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

uma estória


A cidade acordava. Ele sentia a brisa fina da manhã vindo em sua direção enquanto olhava as faces se multiplicarem freneticamente. Tudo é tão diferente do que eu sou, do que eu faço. Olhou mais um pouco e jogou-se de vez na cama. A noite fora longa e ele pensava: sempre lembram de mim. Passou um tempo até que o sono se apossou dele, sem pudor, lembrando-lhe, mais uma vez, da sua noite extravagante. Adormeceu às seis e dezessete.
O barulho de um carro de som anunciando promoções lhe despertou onze horas depois. Mas que infeliz! Puxou “Calabar”. Hum, vamos lá ao "Elogio da Traição". Ria muitas vezes com aqueles diálogos e personagens. *Dois gênios. É incontestável. Leu até que foi trazido mais uma vez à realidade, dessa vez pelo telefone.

- Oi.
- Oi, meu filho da puta favorito!
- É isso aí.
- Como está o resto do dia pra você?
- Interessante e o seu?
- Também.
- Bom saber.
- Agora, faça-nos um favor.
- Um favor... Quem me pede um favor?
- Todos nós, amigos seus.
- Fala. Falem, falem todos vós por você, meu caro.
- Pelo menos dá um tchau da próxima vez, né?
- Não.
- Mas por que, caro amigo?
- Porque... é chato.
- Magina...
- Deram por minha falta muito rápido?
- Claro, assim como da outra vez e da outra e da outra. Da outra também garanto que será a mesma coisa. Aquela saída à francesa tá manjada. A mesa nunca fica igual. A gente acaba notando um desnível.
- É?
- Sim.
- E eu nunca fico o mesmo quando retorno.
- Não entendi.
- Nem eu entendo. É muito complicado isso.
- Demais.
- Vão repetir a dose por lá hoje?
- Vamos, claro, e você?
- Vou, mas não lá.
- O que é isso, amigo?
- Necessidade.
- Se acha que precisa, tudo bem.
- Transmita minhas lembranças.
- Vão ficar felizes com suas lembranças. Sempre ficam.
- Certo. Divirtam-se.
- Você também, ao seu modo. E não nos esqueça num canto qualquer.
- Não esquecerei.
- Até logo.
- Até.

Levantou, caminhou até a cozinha, lavou o rosto por lá mesmo. Abriu a geladeira e tirou uma bebida. Olhou a garrafa. Faça como os outros: não me critique e deixe que eu cuide de você. Caminhou até a varanda, sentou-se no seu canto favorito. Puxou o computador que padecia de solidão e recomeçou no seu ofício. Agora que eu estou em condições, companheiros, não me decepcionem.


* Chico Buarque e Ruy Guerra, autores da peça “Calabar – O Elogio da Traição”

sábado, 17 de janeiro de 2009

1 ano


Gente, saudades. Hoje o salada renasce das cinzas pra comemorar 1 ano de vida, ano esse marcado por muito cinema, música, muuuitas tesouradas e, claro, coisas sem noção. Palmas a vocês, leitores, que compartilharam de tanta loucura.

2008 foi um ano bom e ruim. Em uns aspectos foi “mara”, já em outros, “prefiro não comentar” [citando coisas que eu dizia sem ter a mínima noção de onde vinham]. Fazendo um balanço do que foi o salada nesse ano, eu separei os assuntos que mais deram o que falar: cinema, música, inutilidades da internet e pérolas da política.

O cinema, tenho certeza, reinou absoluto, afinal é uma das coisas que me fazem enxergar a vida com olhos mais otimistas; é também uma alegria imensa compartilhar com vocês as delícias [e não-delícias] da arte 7ª. Relatos de filmes, festivais, atores, post dedicado a filme e diretor favorito, post requisitado por amigo, enfim, se toda minha vida se resumisse nisso eu viveria num estado de alegria constante.

E quanto à música? Nooossa! A MPB continua reinando. Quanto às outras, bem, tesourei muuuito! Mas não pasmem, também me tornei uma pessoa mais aberta a conhecer novas batidas. E, não pasmem novamente, descobri uma paixão: música eletrônica. Entre MPB, rock, umas coisas pop, os tuntz ba-ba-do, uns bregas franceses, uns violinos e pianos, eu ainda achei lugar para uma nova paixão: Zbigniew Preisner, compositor polonês responsável pela trilha do filme Bleu, outros filmes de – salve, salve – Kieslowski e também pela trilha d’O jardim secreto que, diga-se, é belíssima, assim como o filme.

Quanto às inutilidades da internet eu vou abrir agora um ‘confessionário’. What? Explico: inutilidades são indicadas em casos de estado down. Ééé, às vezes eu uso:


[Tá muito desatualizado isso. É que tava mofando aqui no meu pc. Resumindo: mofo deu nas notícias que eram quentinhas]

Ai, gente, e na parte da política, hein? Falo da parte legal, que são, vamos lá: discursos e comentários ba-ba-do que os nossos representantes soltam, afinal, a política brasileira é um circo armado onde se apresentam pessoas ba-ba-do que são vistas por uma platéia ba-ba-do, que se diverte deveras.

E assim, entre artes, inutilidades e política, o salada está de volta.

BjO a todos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

nota aos leitores

Queridos leitores, o salada está passando por uma mudança. Como pra mim a palavra ‘mudança’ significa mudar mesmo, a valer, a fuça [hehe] dele não poderia ficar de fora; coisa básica, mas que já dá um visual mais up. 2009 tá aí e o que eu desejo, with all my heart [de todo o coração], é ter muita coisa a falar por aqui. Também vou ver se consigo, enfim, deixá-lo mais livre no que diz respeito à forma dos textos, aos assuntos... Adiantei a mudança da fuça, como vocês percebem. Ainda vem mais um pouco por aí.

Espero que vocês curtam essa nova fase e pulem por aqui pra ler as bossas novas que essa que vos fala soltará.

Dia 17.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Blindness

Não tinha como sair daquela sessão falando sobre outra coisa. Nós, em direção à escada rolante, cercadas pela habitual loucura de que padece aquele local privado da luz e da escuridão naturais, não conseguíamos proferir muita coisa além de ‘nossa, nossa e nossa’.

Blindness (Ensaio sobre a cegueira) nos proporcionou duas estupendas horas acompanhadas por ela, cegueira, cegueira não só material, mas cegueira de tudo: de moral, de bom senso, de compartilhamento, de enxergar o outro não só com o órgão agraciado. Quando nós conseguimos proferir coisas além de ‘nossa’ foram coisas do tipo ‘não somos nada’, ‘é só a gente perder um sentido que perde a noção das coisas’. Perder um sentido e perder o sentido.

Num mundo em que cada um tava vivendo à sua forma, passando por sinais que abriam e fechavam, cercados de construções que se perdiam em tamanhos e formas, uma epidemia de cegueira veio mostrar mais claramente as mazelas do homem, sua forma de resolver as coisas, seu egoísmo, seu senso de despreocupação com o que vai além do seu limitado campo de visão. Que visão se precisa mais? Aquela que vai além do material, do eu, do minha vida, minha casa, minhas coisas, meu trabalho, meu poder, aquele sinal que não fica verde e aquele idiota que tá com o carro parado bem no meio da rua sem ver que o sinal tá verde.

Humanos presos em escafandros, soltos em latrinas sem a mínima noção do que se tinha lá, jogados como coisas, fez com que eles mostrassem o que movia suas ações. O preço pra ser ouvido, o preço pra se alimentar, o mundo estava pagando por sua humanidade, por seu ‘necessitar’, pela bruta ‘preciso dos outros’ se colocando à frente da pior forma e ainda assim gerando atitudes reprováveis, arrenegáveis. O que se viu foi um local moldado pela sujeira humana, material e não-material, tudo evoluindo pra um estado caótico. Mas, em meio a tudo isso, vivia também ali uma visão que não podia se manifestar senão tiraria mais coisas do homem, negativas, com certeza. A visão se fazia presente em segredo quase absoluto, e o que ela representava? Será que representava tudo que o homem pode ser e fazer? Sim, e tudo pelo que ele pode lutar, e tudo que ele pode deixar de ser, e deixar.

- Eu não vou esquecer sua VOZ.
- E eu não vou esquecer seu ROSTO.

Ainda estou digerindo tudo isso. Também já me perguntei bilhões de vezes: e se eu estivesse lá, o que eu faria? Pensamento errôneo esse. Errôneo porque eu estou lá, simplesmente porque a cegueira está aqui do meu lado o tempo todo.